sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“SAI DE TUA TERRA E VÁ PARA ATERRA QUE TE MOSTRAREI”

Texto Bíblico: Gênesis 12: 1
“ORA, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei”.
A ordem de Deus a Abrão foi clara: “Sai da tua terra e vá para outra terra que eu te mostrarei.”
É interessante que Deus convidou um homem essencialmente urbano para fazer a sua vontade quanto a formação do seu povo. Não sei se todos tem essa consciência.
Mas Abrão cresceu em UR dos Caldeus... provavelmente, de acordo com pesquisadores, ele deveria ter morado em uma das casas aristocráticas de dois andares. Devia ter passeado junto aos muros do grande templo e pelas ruas, e, levantando a vista, seu olhar devia ter encontrado a gigantesca torre escalonada com seus cubos pretos, vermelhos e azuis circundados de árvores. Ele foi cidadão de uma grande cidade e herdou a tradição de uma civilização antiga e altamente organizada. As próprias casas denunciavam conforto, até mesmo luxo. Encontramos cópias de hinos relativos aos cultos do templo e, juntamente com eles, tabelas matemáticas. Nessas tabelas havia, ao lado de simples problemas de adição, fórmulas para a extração das raízes quadrada e cúbica. Em outros textos, os escribas haviam copiado as inscrições dos edifícios da cidade e compilado até uma resumida história do templo.
Portanto, Abraão não era um simples nômade: era filho de uma metrópole do segundo milênio antes de Cristo.
Abrão vai para Canaã, a antiga denominação da região correspondente à área do atual Estado de Israel (inclusive as Colinas de Golã), da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, de parte da Jordânia (uma faixa na margem oriental do Rio Jordão), do Líbano e de parte da Síria (uma faixa junto ao Mar Mediterrâneo, na parte sul do litoral da Síria) conf. (Números 34:1-15 e Deuteronômio 3:8).
Portanto, é mandado para uma região de várias cidade.
Tudo isto nos faz pensar que a cidade está no coração de Deus e por isso ele chama a sua igreja, para que uma vez tendo a “cultura urbana” possa transitar entre cidades levando o evangelho que transforma qualquer estrutura social porque transforma o indíviudo em sua essencia.
As Igrejas de nossas cidades precisam entender que são urbanas. Elas são os Abraãos contemporâneos. Isto significa dizer que elas precisam mover-se para as cidades.

A missão da igreja deve ser realizada nas cidades.
1 - As cidades são o lugar onde as Igrejas podem alcançar a próxima geração (jovens adultos querem viver na cidade);
2 – As cidades atingem mais pessoas inacessíveis (as pessoas são muito mais abertas ao Evangelho na cidade cosmopolita do que em sua cidade natal);
3 – As cidades alcançam as pessoas que têm um grande impacto no mundo (empresários, artistas, políticos);
4 – As cidades atingem os pobres (cerca de um terço dos moradores da cidade vivem em favelas).
5 - “Os seres humanos, de acordo com Gênesis 1, são feitos à imagem de Deus e refletem a glória de Deus mais do que qualquer outra coisa na criação,”
Nas cidades, temos mais imagem de Deus por centímetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo.
As igrejas urbanas entendem que precisam amar o que Deus ama e por isso amam a cidade.
Temos que ver a cidade não apenas do ponto de vista sociológico, mas principalmente pelo ponto de vista teológico – Deus quer restaurar a sua cidade, tornando-a cidade fiel.
Quais os desafios de uma igreja urbana?
1 – Igrejas urbanas precisam ser contextualizadas, a fim de serem eficazes. Uma Igreja urbana é diferente de uma Igreja na zona rural. Ela deve insistir em sua contextualização.
Uma Igreja urbana, que tem pessoas de muitas culturas, subculturas, tribos deve ser extremamente paciente quanto às acusações de insensibilidade cultural e deve esperar ser acusada disso. Pastores de Igrejas urbanas devem aceitar que eles nunca poderão resolver queixas de insensibilidade cultural, mas que eles podem aprender com as críticas.
2 – Igrejas urbanas precisam mostrar às pessoas como sua fé se relaciona com seu trabalho porque os empregos são uma parte muito maior da vida de moradores urbanos.
Temos que ajudar as pessoas a aplicarem a sua fé no seu trabalho.

3 - Igrejas urbanas precisam esperar desorganização e mudanças; serem intensamente evangelísticas, mas ao mesmo tempo, famosas por sua preocupação com a justiça, serem comprometidas com as artes, e cooperarem com outras denominações e fé.
4 – Igrejas urbanas precisam agir com gestos e ações específicas -
a. Fome, a ausência de alimento suficiente, ou a falta de uma boa alimentação, ainda é uma realidade para a população urbana pobre. Mas o memorial do culto cristão é a ceia da comunhão: as pessoas se reúnem para ser alimentadas à mesa do Senhor. Os cristãos partem o pão e bebem o vinho juntos, simbolicamente proclamando que a igreja é uma comunidade onde os alimentos, celestiais e terrenos, estão disponíveis. Uma comunidade que chama seu Senhor, o pão da vida e cria uma refeição simbólica, a Ceia, que, naturalmente, transborda para outros ministérios de alimentação, tais como cozinhas e cantinas e doações de alimentos. Com e através da Ceia e o alimentar, a igreja urbana deve proclamar o evangelho que sacia os famintos que estão fora;

b. A cidade é caracterizada por más instalações educacionais. Um grande entrave para a reforma da base econômica da cidade é a falta de vontade de quem pode pagar para fazer o contrário de submeter seus filhos à insuficiência de escolas urbanas. Contudo, no meio da cidade está uma igreja que é o descendente da sinagoga judaica, que era principalmente um centro de ensino. A igreja capacita o seu povo e traz para a vida da tradição cristã, permitindo que o nosso património se tornar uma força no nosso presente. Aqui as questões morais da vida podem ser explorada. Na igreja dos valores étnicos dos diversos povos podem ser comemorados, suas línguas e culturas diferentes, enriquecendo o outro. É vital para a igreja urbana levar a sério sua função de ensino como uma comunidade cristã, consciente si mesmo. Aulas de Bíblia, sermões eficazes, grupos de estudo, conferências de fim de semana, mesmo retiros precisam ser uma parte da crescente consciência de Deus das congregações da cidade. O Deus que se opunham à guetização dos escravos israelitas do Egito é o mesmo Deus que é adorado nas igrejas da cidade. O Deus que falou através dos profetas para acabar com a opressão humana ainda é o Deus de toda a igreja. A história bíblica continua na vida existencial dos moradores da cidade;

c. A vida urbana não é bonita. A coleta de lixo é geralmente pobre. Lixo nas ruas. Muitas casas estão em más condições. Muitas pessoas da cidade são tão deprimidas que elas deliberadamente preenchem suas vidas com a feiura, como

um comentário inconsciente na forma como elas se sentem valorizadas por outros. Por isso, é especialmente importante que as igrejas da cidade sejam locais de beleza. Suas ordens de cultos, liturgias devem ser sensíveis e magníficas. O dinheiro gasto para embelezar os templos urbanos não deve ser considerado desperdiçado, porque a beleza é um dom que cobiçam os pobres. As igrejas precisam testemunhar o poder da beleza e do sentido de cuidar do ambiente de maneira limpa. Uma Igreja Urbana precisa brilhar como centros de beleza, como símbolos de esperança, como sinais do Reino. Eles precisam estar vivendo parábolas do cuidado de Deus;

d. A cidade tem cada vez mais se tornado um lugar de violência. Crimes contra pessoas e bens faz temer o morador da cidade. A vida se restringe quando as pessoas devem procurar a segurança acima de realização. Mas no meio da cidade está uma igreja - uma igreja que é, em si, às vezes vítima de violência e cuja principal símbolo é uma cruz. A história da cruz se desdobra, nela se encontra um amor divino que supera o ódio, e um Senhor vivo que transforma a morte. Somente na igreja que o morador da cidade ver o símbolo da violência redimida, o desespero da morte derrotada. Por todas estas razões, a presença simbólica da igreja da cidade é necessária à causa de Cristo - e, desde que necessário, merece o apoio e o investimento de, tempo e talento de todos os tesouros do povo de Deus;

e. Na cidade, onde encontrar moradia adequada e segura é uma preocupação constante, é como uma casa - uma casa de Deus - que a igreja realiza o seu testemunho. Ela precisa ser o que a moradia significa para as pessoas: um refúgio, um abrigo, uma arca para levar-nos através da tempestade. Embora a igreja não tenha nem o poder nem os recursos para resolver problemas de habitação urbana, pode ser uma casa acolhedora para os sem-teto, uma casa para aqueles que foram traumatizados, um refúgio para aqueles que estão perdidos. Pode ser a casa do último recurso, quando as estruturas habitacionais falharem, a casa de Deus para aqueles que procuram deve ser um lar abençoado;

Nós somos a igreja do Senhor encarnado que amou tanto o mundo que nasceu em nossa vida humana, sua presença virou um estábulo comum em um santuário de majestade. Sua vida transformou uma cruz de execução em um símbolo da ressurreição. Porque nós servimos a este Senhor, a igreja cristã é uma presença simbólica que pode transformar o desespero da cidade em esperança, a feiura da cidade, em beleza, o poder destrutivo da cidade, em redenção. Na igreja os sem-teto devem encontrar abrigo, aqueles de diversas origens, devem ser-lhes dados uma comunidade e os famintos podem se reunirem em torno do altar para serem alimentados com o pão e o vinho da Ceia do Senhor Jesus Cristo.

A igreja é uma presença, um posto avançado do Reino de Deus, uma luz na escuridão que as trevas jamais poderão extinguir ou subjugar. Nossa vocação é sermos nós mesmos. Algum dia mais cristãos dos subúrbios, das cidades reconhecerão que este testemunho é profundamente importante para eles. Então, talvez, toda a igreja irá colocar os seus recursos onde a necessidade está, não porque somos generosos, mas porque a nossa integridade como povo de Deus exige.

A igreja será verdadeiramente urbana.

sábado, 19 de junho de 2010

ONDE DEUS ESTÁ? A Situação de Nossas Instituições Batistas


“Onde Deus está?”, os repórteres perguntaram a Billy Graham por ocasião do atentado terrorista das torres gêmeas, EUA. O grande pregador respondeu mais ou menos assim: “Deus está nos bombeiros que estão trabalhando dia e noite para resgatarem os sobreviventes, nas centenas de pessoas solidárias que ajudam através do trabalho braçal e doações e dos paramédicos.”

Nestes dias tão complexos que estamos vivendo como denominação por causa da situação dos seminários teológicos, dos nossos centros educacionais e outras realidades que nos causam profunda tristeza de alma, precisamos de uma resposta para a pergunta: Onde Deus está trabalhando? Caso contrário, ficaremos perdidos e tudo o que fizermos sem sentido.

A resposta que vamos dar não é fácil. Trilha o caminho do diálogo e de uma profunda reflexão que deve ser feita com toda a humildade e por pessoas que realmente possuam o interesse de ver a obra do Senhor dignificada, apontando a todos respostas que os levem a crer na soberania de Deus, apesar da pecaminosidade e limitações humanas e não os deixem incrédulos da vida denominacional.

Onde Deus está?

Talvez na própria reflexão dos líderes que não possuem outra alternativa a não ser pensarem sobre o assunto, sobre os pecados e confissões que se fazem necessários nesta hora;
Na coragem que precisa ser empreendida para a tomada de decisões que rompam um ciclo viciado de cultura gerencial;
Numa politicagem que será desbaratada dando lugar a ações de justiça, amor e santidade;
Na solidariedade de líderes e igrejas que querem resolver os problemas sem jogarem tudo para o alto;
Nas estruturas que vão surgir para solucionar o caos e que servirão de atos preventivos para o futuro das diversas organizações de nossa denominação.
No surgimento de ‘profetas’ institucionais que declarem a vontade de Deus para a denominação e são acatados como instrumentos dele para a saúde de nossa organização batista.
No descobrimento de homens e mulheres de Deus capacitados para exercerem com eficácia e eficiência o serviço de Deus por terem sidos preparados por ele para esta hora.

Na busca de soluções é preciso não só reuniões sobre estratégias e prováveis soluções, mas respostas também. Não qualquer uma, mas a que nos dará condições para progredir.

Quando percebemos onde Deus está agindo nas perdas, descobrimos não somente ele, mas a tenacidade para continuarmos na jornada do dia a dia e a esperança para ir em frente, crendo que dias melhores virão. Sua soberania nos dá a absoluta certeza de que não estamos desamparados. Ele continua no alto e sublime trono.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A FILHA DE FARAÓ: QUEM SE IMPORTA?

Sobre mulheres ao pastorado batista

A causa não somente é nobre, mas é justa. Mulheres chamadas por Deus para exercerem o ministério pastoral precisam de espaço legitimado em nossa Convenção e na OPBB e enquanto isso não ocorrer como precisa acontecer, para usar a expressão preferida do nosso presidente Lula, a luta continua. Uma luta não com espadas, mas com o cajado. Uma luta que se trava não em um dia, como Davi e Sansão, mas no dia-a-dia como o próprio Davi e Saul, que desafia até a última hora a própria fé. Mas não podemos deixá-las lutar sozinhas, nós os pastores, isso é injusto. Afinal de contas é de se esperar que sejamos hábeis no cajado, não é verdade? Temos que ajudá-las neste santo ministério de exercerem seu dom em toda amplitude que se precisa ter. Creio no trabalho em parceria. Como se faz isso?

Nestes dias estava lendo a história de Moisés, a narração que se encontra em Gênesis 2:1-10 e me detive não nos hebreus, em Faraó, Joquebede ou Miriam, mas na filha do imperador. Sempre em minhas devocionais tenho me perguntado o que tenho a ver com o texto lido. Com os hebreus creio que somente a fé, pois não me encontro sobre a opressão de um ditador, de um poder déspota, em relação à situação financeira e de conforto estou mais para ser um Egípcio do que um hebreu; com Faraó muito menos. A dor da mãe e da irmã de Moisés também não é a minha. Então só me resta a filha de faraó. É possível aprender com alguém que não faz parte da aliança com Deus? Claro que sim. Quais as lições que esta mulher rica e poderosa pode ensinar àqueles que querem fazer a vontade de Deus cooperando com as pastoras em seus pleitos?

É preciso ver. Ela viu o bebê dentro de um berço de junco. Nem sempre é fácil ver, ainda mais quanto o objeto de nossa visão não faz parte do nosso mundo, das nossas preocupações, como no caso da princesa do Egito. Não sabemos o nome desta moça, nem o seu temperamento, o grau de sensibilidade que tinha diante do outro, o que nos facilitaria chegar à conclusão porque ela viu. O fato é que apesar de não a conhecermos ela parou o seu banho para ver. Tudo começa com a disposição que temos de ver o que está em nosso rio, onde nós confortavelmente estamos nos banhando. É incrível que mesmo diante de tantas pastoras no cenário batista, mais de cem, pastores do gênero masculino continuam querendo, propositalmente, ignorá-las como se elas não existissem. Ainda estão discutindo se é ou não é bíblico, questões sociológicas, econômicas e espirituais. É como que Moisés passando diante das vistas da princesa e ela não olhasse. Isso até poderia acontecer com ela, pois não era do povo de Deus, mas quando acontece com homens de Deus é lamentável. Nós pastores-homens deveríamos aprender a olhar com o nosso mestre Jesus. Seu olhar sempre foi atento para os marginalizados e para com aqueles que precisavam de ajuda, particularmente com mulheres. É preciso deixar o colírio de Deus dilatar nossos olhos para identificar nossos problemas de visão e nos receitar as lentes com graus corretos para que vejamos o que precisa ser visto.

É preciso querer abraçar. A filha de faraó não somente viu, mas resolver tomar o bebê em seus braços, criá-lo, providenciar tudo para o seu crescimento sadio. Como isso foi possível? Creio que um milagre aconteceu, pois o normal seria ignorar a criança ou no máximo providenciar uma pessoa para cuidar dela, de preferência que não tivesse nenhuma ligação com o reinado. Há muitos filhos no Egito! Ela assumiu a maternidade tendo um filho hebreu do coração. Trouxe um fruto da escravidão para dentro de seu mundo, de sua casa. Absolutamente incrível esta mulher. Outro dia soube de um pastor famoso em nossa denominação que disse o seguinte: `Não está em minha agenda o assunto das pastoras por isso não me pronuncio´. Outro ainda disse: ´Não sou vocacionado por Deus para abraçar esta causa, deixo para os que são´. Sinceridade à parte, o inferno está cheio de gente sincera, a questão presente é de luta por justiça e quem não é chamado para tal? E que agenda pessoal não cabe tal pauta? Sinceramente o que falta são pastores-homens que queiram abraçar a causa como a princesa assim procedeu com Moisés. Não é um abraço de guerrilha, como só nós homens sabemos dar, mas um abraço cheio de compaixão porque assim como aquela pequenina criança no rio, as pastoras precisam de ajuda eficaz para não serem devoradas pelo próprio rio. A advertência ao não abraço é a do próprio Deus: não nos deixará sem o julgamento necessário pelas obras que deveríamos fazer e não as fizemos.

É preciso entender os momentos. Era um pequeno momento de banho. Prazeroso com certeza. Nunca aquela moça poderia imaginar que sairia dali como mãe e entraria na história do povo de Deus, não é verdade? Tenho aprendido que os momentos que menos esperamos são os que acontecem coisas em nossas vidas que mudam a nossa história, são as ocasiões em que muitas vezes Deus age e precisamos estar atentos para isso com o prejuízo de perdermos o kairós de Deus em nossa própria história e na história de Deus no mundo. Sua atitude determinou muita coisa na vida de Moisés e do povo hebreu. Nós pastores-homens precisamos perceber estes momentos que Deus tem nos dado para refletirmos nas atitudes que devemos tomar para que as mulheres pastoras possam, como grupo escolhido por Deus, se desenvolver sadiamente. Talvez nesta caminhada tenhamos que assumir a ´paternidade´ que, apesar de serem mulheres, as trazemos para junto de nós porque entendemos que temos condições de dar um futuro melhor e mais do que isso, o essencial, compreendemos que Deus preparou esse momento em nossas vidas para salvarmos um ser que precisa de ajuda, pois está em uma situação injusta.Sempre me pergunto nesta hora o que Deus quer que eu faça de relevante no seu reino? Penso em grandes coisas. Mas tenho aprendido que são as pequenas que movem o mundo ao meu redor. Quem se importa? Como a princesa do Egito, hoje a OPBB possui todas as condições para ajudar nossas irmãs em sua trajetória de peregrinação e fé. Muitos de nós pastores-homens estão em lugares estratégicos no rio de nossa denominação, têm prestigio, inteligência, livre transito, relacionamentos que fazem diferença, possuem o dom do ensino e da prédica, são estudiosos e convincentes quanto a proferir a vontade de Deus de maneira contextualizada e bíblica. Resta saber se realmente estão dispostos a ver, a abraçar e a entender o que o Espírito de Deus está dizendo à igreja, como ele está se movendo nas águas do rio e em seus corações.

FILHAS ALTIVAS; PASTORAS QUE LUTAM

Gostaria que neste pequeno artigo ficasse registrada minha solidariedade e apreço pelas pastoras da CBB que lutam pela justiça, à propósito da participação delas em Cuiabá,em janeiro de 2010.

Mulheres não são iguais. Nem todas possuem as mesmas posturas. Há mulheres altivas e as lutadoras. As duas posturas são excludentes e inconfundíveis.

As filhas de Jerusalém
O texto de Is. 3.16-23, refere-se às mulheres de Jerusalém no 80 século AC, as filhas do povo de Deus. A síntese da constatação profética está na primeira frase: são altivas. Passeiam pelas ruas da cidade com uma postura de olhos, passos, sons, enfeites que ofendem a Deus. Digno de nota aqui é a ofensa a Deus, que o escritor faz questão de frisar e não aos homens ou as outras mulheres. E por que ofendem a Deus? Porque agem como se não houvesse uma causa a defender e razões para lutar. Estão tão confortáveis sobre suas próprias conquistas e riquezas que se esqueceram da injustiça feita com os órfãos e com mulheres como elas que ficaram viúvas e que sofrem, além da dor da solidão, as perdas econômicas e sociais. O julgamento do próprio Deus será cruel: a escravidão marcada na própria pele por sinal de desobediência à lei do Senhor. Todos veriam e saberiam o resultado de não ser justo e sim ímpio no sentido mais exato dos termos.

As Pastoras
Que diferença das mulheres pastoras que passeavam nos corredores da CBB em Cuiabá, MT, no mês de janeiro de 2010! Ao contrário das de Jerusalém, embora andassem como elas, entre o povo, movimentavam-se numa postura de justiça e retidão. Poderia afirmar por testemunho próprio, corriam. Femininas sim, encantadoras, por que não? Com todos os seus atavios digno de nota, mas com algo muito além do que se podia ver: sentimento de luta por uma causa que ultrapassa as suas próprias vidas e objetivos. Uma batalha por dois valores de suma importância no reino de Deus: justiça, michpat, traduzido por direito, por busca do prevalecimento do que é absolutamente certo diante de Deus e de todos; retidão, tsédeq, como aspecto pessoal do cumprimento do direito.
Na hora da votação por direitos igualitários na OPBB, pararam de andar e sentaram porque tudo o que se poderia fazer, fizeram. Agora somente restava oração, fé, lágrimas e a certeza de tarefa de casa bem cumprida. Puderam sentar-se porque tiveram uma postura ativa, eficiente e eficaz antes da hora da decisão.
Deus ficou alegre. Com certeza seu julgamento a elas não foi de destruição, mas de vitória. Ele veio com seu poder e glória, de maneira tão surpreendente fazendo justiça com a causa que elas defendiam, porque ele não deixa jamais sozinho aquele que o busca e faz a sua vontade.
Porque há mulheres que insistem em ter outra postura que não a altivez ainda há esperança para Israel.
Filhas – pastoras de Israel - não desistam! Deus prevalecerá e tudo o que não está completamente aplainado, o será.

POR UMA CARTOGRAFIA DO ESPAÇO CULTURAL FEMININO

Mapa é uma representação do espaço

Tenho acompanhado toda a discussão sobre o pastorado feminino e o que percebo, na maioria das vezes, é a falta de dados precisos sobre o mesmo, principalmente por parte de líderanças denominacionais que influenciam em decisões importantes quanto ao futuro de nossa denominação como a própria OPBB que deveria ser a primeira a ter computado informações claras nesta área. Até onde tenho conhecimento, a primeira fonte precisa de informações quanto a esse assunto veio de uma pastora que modestamente começou a criar um banco de dados para saber os nomes, os lugares e o tempo de função pastoral feminino em todo o Brasil, a Pra. Zenilda Reggiani Cintra.

O interessante é que as decisões até então tomadas que atingiram nossas pastoras e o quadro pastoral da CBB foram tomadas no escuro, pois sem dados precisos não há luz necessária para se ver por todos os ângulo do assunto em pauta, o que foi e é uma lástima.

Defendo veementemente um mapeamento do espaço pastoral feminino na CBB. Uma cartografia. Só então poderemos trabalhar de maneira objetiva e concreta com o novo em nosso meio.

Cartografia (do grego chartis = mapa e graphein = escrita) é a ciência que trata da concepção, produção, difusão, utilização e estudo dos mapas. Aqui uso o termo no sentido lato para expressar o desejo de se ter um mapeamento sobre a pastoral feminina desde o seu surgimento nas igrejas batistas da CBB.

É claro que não estou pensando apenas no desenho escrito do número das pastoras já existentes, que já é algo por si só expressivo, mas na análise da história da participação dessas mulheres que tiveram que lutar uma batalha praticamente sozinhas para chegarem a ser participantes do ministério pastoral. Um mapeamento que leve em conta o porquê da fala ou do calar-se, as memórias positivas ou negativas que guardam em toda a jornada de fé e as consequencias em suas histórias pessoais e ministeriais. Um mapeamento que se torna em si mesmo um apelo para escrever uma história das mulheres e para circular seus problemas àqueles de outras histórias como em nosso caso pastores do gênero masculino. Essa atitude poderá modificar o quadro geral da história destas que simplesmente querem ter o direito de exercerem com legitimidade seu dom, no caso pastoral no conjunto da história de nossa denominação. Uma cartografia empreendida que acompanhe os contornos, as mudanças e as rupturas, bem como as multiplicidades que envolvem os comportamentos, os sentimentos e a sensibilidade de cada pastora envolvida na prática pastoral denominacional.

Para que isso se torne realidade é preciso ouvi-las e para isso não se precisa fazer uma tese de mestrado e doutorado. Nem estou pensando em um GT que vai trabalhar o assunto pastoras (como já houve no passado), isso é algo puramente sistêmico e administrativo. Estou pensando em algo mais simples, no entanto mais profundo: sentar-se com elas e no mesmo nível de autoridade – homem e mulher – conversarem refletindo sobre suas vivências.

Deveriamos ser muito bons nisto uma vez que nosso sistema de governo eclesiástico está baseado na democracia, no sistema congregacional onde, por premissa, o falar e o ouvir fazem parte intrínseca do processo, mas não o somos, na prática, quando “o poder” se impõe contra a parte fragilizada, a mulher, pela opressão e a não legitimidade no sistema

Fica aqui o apelo: vamos lutar para um mapeamento. Lutar por conversas criativas, com palavras saudáveis que resultem em resenhas que traduzem nossa visão sobre o assunto pela ótica correta e balizada. E quem sabe depois de ouvir suas histórias de vida e de luta possamos ir à luta como Baraque e ganharmos a batalha.