domingo, 22 de fevereiro de 2009

E LÁ VEM O BLOCO DOS EVANGÉLICOS!

MISSÕES URBANAS

Durante o período do Carnaval, muitas igrejas realizam projetos de evangelização entre os foliões, chamados impactos evangelísticos, incluindo até blocos chamados evangélicos. O fato tem gerado debates calorosos, com posicionamentos contra e a favor.

Quero fazer algumas considerações que acredito necessárias para que a igreja brasileira possa caminhar nesta época de grandes e rápidas mudanças:

1. O desafio de realizar Missões Urbanas precisa ser levado a sério – Entre tantas definições contemporâneas para Missões, gosto da definição tradicional que os missionário pioneiros nos deixaram como legado: “Missões é a ação da igreja em um outro contexto cultural”. Essa definição deixa clara a diferença entre missões e evangelização e também estabelece a co-relação entre elas: missões tem a ver com transpor obstáculos; evangelização, como a ação de pregar o evangelho a partir de nossa própria comunidade. Neste sentido, nem toda evangelização é realizar missões, mas todo ato missionário tem como co-autor o evangelismo.

Agora há de se reconhecer que fazer missões em ‘Jerusalém’, nossa cidade, é mais problemático do que nos confins da terra. As sub-culturas, as tribos existentes nas cidades, precisam ser alcançadas e os critérios de alcance precisam vir junto com os princípios missiológicos que se fazem necessários para o alcance dos povos. Acredito que se uma igreja realmente possui a visão de realizar missões urbanas por ocasião do carnaval, ela necessita de buscar métodos que sejam eficientes e eficazes na proclamação do evangelho.

2. Esses métodos precisam vir lincados à noção de “tribos urbanas” - Talvez aqui esteja o maior desafio missionário. Não sou sociólogo, mas acho que não cometo nenhum ato desvairado quando afirmo que o carnaval, os blocos, as escolas de sambas e outras associações” podem ser consideradas como tribos urbanas. Não numa definição categórica onde tribo tem haver com uma forma de organização mas de forma metafórica onde "tribo" evoca, mais do que recorta. E evoca o quê? Primitivo, selvagem, natural, comunitário, características que se supõe estarem associadas, acertadamente ou não, ao modo de vida de povos que apresentam, num certo nível, a organização tribal.

3. Geralmente os atos missionários são mais audazes e contraditórios do que os evangelísticos apenas – Aqui é o cerne da questão. Não podemos analisar métodos missionários e julgá-los sem que saibamos exatamente em que contexto cultural ele está sendo aplicado.

As igrejas que estão realizando os blocos de evangélicos para realizarem missões urbanas são acusadas, muitas vezes por quem não entende sobre “atos missionários” e julga pela ótica da igreja local, que evangeliza comumente uma comunidade da mesma cultura e, por isso não tem que lidar com as loucuras de um “campo missionário”.

4. É claro que os perigos são muitos, mas o arriscar-se faz parte do mover missionário na face da terra - Os que saem nos blocos evangélicos, credenciados pelas igrejas, correm o perigo de se perderem no mundo. Não podemos ser ingênuos, mas a força do poder do evangelho, acredito, é suficiente para o risco que possamos ter. O que se pode fazer é a igreja preparar adequadamente todos que vão realizar esta missão, o que geralmente tenho visto por parte das igrejas inovadoras nesta área através de discipulado para todos os participantes.

Terminando, admiro as igrejas que, com visão missionária, estão descobrindo novas formas de alcançar o povo. Sei que assim como Deus tem um chamado especial para alguns, apesar de todos sermos missionários, creio que algumas igrejas têm um chamado mais ousado para a realização de missões urbanas.

Ao contrário de criticá-las, vamos louvar a Deus por iniciativas “loucas” que trazem resultados para o Reino de Deus, mesmo quando nossa vocação e de nossa igreja sejam diferentes.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A PASTORAL URBANA

Tá vendo aquele edifício moço... Ajudei a levantar. Foi um tempo de aflição. Eram quatro conduções: duas prá ir, duas prá voltar. Hoje, depois dele pronto, óio pra cima e fico tonto, mas me chega um cidadão e me diz desconfiado: tu taí admirado ou tá querendo roubar... Meu domingo tá perdido. Vou pra casa entristecido, dá vontade de beber. E prá aumentar o meu tédio, eu não posso oiá pro prédio que eu ajudei a fazer. Tá vendo aquele colégio, moço... Eu trabalhei lá. Lá eu quase me arrebento, fiz massa, pois cimento, ajudei a rebocar. Minha fia inocente, vem pra mim toda contente: Pai,vou me matricular. Mas me diz um cidadão: criança de pé no chão aqui não pode estudar. Esta dor doeu mais forte, porque é que eu deixei o Norte... Eu me pus a me dizer. Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava, tinha o direito de colher. Tá vendo aquela igreja moço.... Onde o pastor diz amém. Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo, lá eu também trabalhei . Lá sim, valeu a pena (...) Foi lá que Cristo me disse: rapaz deixe de tolice não se deixe amedrontar. Fui eu quem criou a terra, enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar.

Ao se pensar na pastoral urbana, tem-se que pensar na salvação da cidade. A igreja atual é chamada a olhar a cidade como local da sua missão, percebê-la como casa daqueles por quem Jesus morreu para promover vida.

O texto escolhido como referencial para este reflexão foi retirado da tradição dos profetas, especificamente o primeiro Isaias, que atuou aproximadamente entre 740 e 700.

“Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de justiça; a retidão habitava nela, mas agora homicidas. A tua prata se tornou em escórias, o teu vinho se misturou com água. Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles à causa das viúvas. Portanto diz o Senhor, o Senhor dos Exércitos, o Poderoso de Israel: Ah! Livrar-me-ei dos meus inimigos. Voltarei contra ti a minha mão; purificarei inteiramente as tuas escórias, e tirarei de ti toda impureza. Restituir-te-ei os teus juízes, como eram dantes, e os teus conselheiros, como antigamente. Então te chamarão cidade de justiça, cidade fiel”. Isaías 1.21-26

À medida que se observa que a vida garantida por Deus está sendo negada ao povo, há de buscar-se diretrizes que orientem a caminhada da Igreja, rumo a construção de uma Cidade Fiel, possibilitando que a vida seja plena e isso através da encarnação do Evangelho de Cristo até que o ser humano tenha plenas condições de relacionar-se com Deus e com o próximo em amor e justiça, desfrutando de todos os benefícios que a vida na cidade pode oferecer.

Enquadrar-se como espaço onde o ser humano tenha acolhida e força motivadora para a conquista de sua cidadania e vida plena garantida por Jesus Cristo, certamente colocam-se como desafios para a pastoral. Para tais responsabilidades, a Igreja Brasileira deve assumir paradigmas que sustentem e inspirem sua atuação na cidade, colocando-se como tentativa de contribuir no processo de construção da Cidade Fiel.

O texto de Isaías deve ajudar a Igreja Brasileira a ver que sua pastoral urbana deve ser libertadora e deve, necessariamente, começar pela percepção profética da realidade de nossas cidades que compõem o Brasil. Cria espaço para formular estratégias pastorais dando não somente a critica ácida e destrutiva, mas a que traz esperança, também profética, do perdão e da renovação efetuada por Deus, em benefícios dos Seus.

A igreja necessita, em sua pastoral, chorar a inexistência de uma cidade justa. Manter-se em descontentamento com a crise instaurada em nossos dias, tornando-se cúmplice e co-responsável da lógica opressora que assola nossos dias.

A atitude profética, enquanto voz de uma classe desfavorecida, deve inspirar e fundamentar a pastoral urbana. Em nosso País, a situação atual não muito diferente.

As nossas cidades são um palco de violência, roubo e injustiça. Vive-se um sacrifício diário de milhares de pessoas pobres que, na maioria das vezes, não tem mais a estabilidade garantida pelas famílias e se vêem sozinhas no caos injustiçado pela ideologia capitalista que concentra muitos bens nas mãos de uma minoria, desprezando e oprimindo a maioria, desprezando e oprimindo a maioria.

Nessa política de roubos, violência e injustiça, a postura da igreja pastora na cidade deve ser aquela do profeta denunciar os agentes da opressão, postar-se ao lado daqueles que tem sido marginalizados na cidade, obrigados a morar em cortiços, favelas e nas ruas da cidade, roubados no direito e na justiça; deve dar-lhes sentimento de pertença, colocar-se como uma comunidade que encarna suas lutas e rompe com o egoísmo da elite.

Isaías acredita na possibilidade de restauração da cidade. Esta é uma esperança que deve alimentar a pastoral da igreja na cidade. Deve-se evitar uma abordagem negativista, que não vê possibilidade de restauração.

A certeza de Javé em nossa luta deve inspirar a igreja a formar comunidades que confrontem as forças e faça com que se rendam. O protesto é legitimo e deve ser levado a frente. Os governantes corruptos que comprometem a vida e a justiça social devem ser afastados de seus cargos. Seus substitutos devem ser pessoas que levem a sério a luta do povo, governantes que direcionem seu labor na construção da Cidade Fiel. Daí a importância da Igreja aprender a votar nas urnas escolhendo pessoas que realmente apresentem planos a população de vida digna; a importância da igreja acompanhar e cobrar as prestações de constas dos governantes para que se tenha uma avaliação correta do tipo de justiça e dignidade que esses estão plantando na terra Brasil.

A igreja deve estimular na vida de seus adeptos a procura por meios que confrontem as lideranças políticas, econômicas e sociais que pervertem o direito e excluem grande parte das pessoas, sofredoras, em busca de sobrevivência, da plenitude da vida social e do conhecimento dos direitos adquiridos.

A voz do profeta Isaias deve ecoar na voz da Igreja de hoje. Urge que se busque a construção da Cidade Fiel, lugar onde a justiça possa passar a noite; ambiente em que o direito permeie todas as relações. Esta deve ser a utopia da igreja pastora em terras urbanas, sonho que podemos sonhar com Deus, pois o seu interesse é que a vida seja abundante.

Não se pode cair num negativismo que gere estagnação, mas deve-se, enquanto igreja, participar das lutas do povo, pois são legítimas, conscientizá-lo de seus direitos, e dar-lhes a grata noticia que Deus está do lado dos que clamam por justiça.

É tempo de bradar contra os líderes que se vendem e anunciar um novo tempo em que os líderes sejam resultado da intervenção de Javé e da participação democrática e consciente.

Concluindo, a pastoral da Igreja brasileira deve tentar incansavelmente abrir caminhos que visem à construção de uma cidade e sociedade justa por vias de uma hermenêutica bíblica que leve em conta os desafios citadinos. Deve empreender o esforço de concretizar o Reino de Deus, de trazer às cidades o amor e a vida plena que Deus oferece.