quarta-feira, 19 de julho de 2017

“Venha o teu Reino, até a última fronteira”

 “Venha o teu Reino, até a última fronteira”

Conceituando uma Igreja funcional como comunidade que faz diferença na terra.

Apocalípse em português evoca um sentido escatológico, de “ultimas coisas”. Em Inglês, Revelation, dá-nos a idéia de “descoberta”, “revelação”. Entretanto em grego, apokalipso, significa simplesmente “trazer à tona o que está encoberto”.

Não se trata puramente de dar conhecimento a fatos vindouros. Apocalípse na verdade fala muito mais sobre a Igreja de Cristo hoje, seu caráter, sua vida e  Missão. Gostaria assim que lêssemos Apocalípse, capítulo 3.

Apoc 3:15-17

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio, ou quente. Assim porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes estou rico e abastado e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”

As cartas de Jesus às Igrejas da Ásia possuem duas funções básicas.

A primeira é revelar os critérios pelos quais o Senhor julga a Sua Igreja. Nós a julgamos por valores externos, visíveis e contábeis: seu templo e número de membros, sua estrutura administrativa e exposição social, seus líderes e seu culto. Como canta o coral e como prega o pastor.

Os critérios de Jesus são bem mais particulares e giram em torno de valores mais eternos do que passageiros;

Charles Kerman, filósofo cristão, diz que “nada do que tocamos é eterno”. E Jesus, quando olha para as igrejas de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia trata de valores eternos. Em nenhum momento usa como crivo de julgamento  a estrutura física e visível da igreja mas trata sim do pecado que a assedia, a fidelidade perante as provações, a pregação do evangelho no mundo e a resistência aos ataques do diabo.  Jesus prepara aqui uma Igreja para viver a eternidade.

A segunda função básica das cartas às igrejas na Ásia é justamente nortear nossa jornada hoje.

Apesar de Apocalípse ser um livro com cores escatológicas, é altamente existencial tratando do cotidiano do povo de Deus neste mundo.

O verso 15 do texto que lemos fala sobre a possibilidade de uma Igreja ser quente, fria ou morna e erroneamente tem sido visto ao longo de anos como uma simples apresentação de três diferentes níveis de espiritualidade. Se o analisarmos cuidadosamente, entretanto, veremos que o assunto tratado é a funcionalidade da Igreja, seu modus operandi, o que ela faz baseado em quem ela reconhece ser.

Esta carta começa afirmando “conheço as tuas obras” (3:15) apontando para a vida funcional, prática e efetiva da Igreja e continua dizendo:.

“Que não és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente...”

e esta é basicamente uma afirmação de desejo. O Senhor Jesus afirmando à Igreja em Laodicéia que desejava que fossem quentes ou frios. Não há indícios para crermos que fosse uma expressão de ironia mas sim um desejo sincero de vê-los tanto quentes quanto frios.
Para entendermos esta afirmação precisamos lembrar que Laodicéia, pequena cidade, localizava-se entre outras duas grandes e conhecidas cidades na região. Ao norte Hierápolis e ao sul Colossos.

Hierápolis era conhecida em toda a região por suas fontes de águas frias. Era uma espécie de Oásis no verão para onde as multidões afluíam.  Segundo Orgeon[i], à entrada da cidade havia uma inscrição com os dizeres: “Lugar de Refrigério”.

Colossos ao sul era ainda mais conhecida pelas suas fontes de águas quentes, sobre as quais dizia-se possuírem poderes medicinais e terapêuticos usadas por pessoas com problemas ósseos, reumáticos, respiratórios e tantos outros. Um lugar de cura e terapia do corpo.

Quando o Senhor afirmou à igreja: “que nem és frio nem quente” poderíamos parafrasear: Que nem possuis função de causar refrigério às vidas que os procuram como as águas frias de Hierápolis; como também perdestes a função terapêutica de alívio aos aflitos à semelhança das águas quentes de Colossos. Como sois mornos (e águas moras não possuem função) estou a ponto de vomitar-te da minha boca.

Jesus mostrava assim que em Seu Reino a Igreja deveria possuir uma função kerygmática. De levar o evangelho até a última fronteira.

Permitam-me propor-lhes alguns conceitos norteadores da caminhada desta Igreja na visão de Jesus para o Seu Reino, a partir do exemplo de Laodicéia.


1. No Reino de Deus o caráter  precede a Missão

A vinda do Reino entre todos os povos começa sempre a partir de um movimento particular antes de chegar às massas. Começa a partir de um coração que espelha o senhor Jesus.

Muitas vezes nos impressionamos com homens, ministérios e histórias que não impressionam a Deus. E isto acontece porque o critério pelo qual o Senhor Jesus julga a sua Igreja é muito mais particular do que público. Por isto sabemos biblicamente que Missões não é uma ação definida em termos de resultados mas sim de fidelidade ao Senhor. Entretanto em nossa recente história das missões no Brasil ainda cultuamos mais os resultados do que o caráter.

No verso 15 quando o Senhor Jesus, escrevendo à Igreja em Laodicéia diz, “conheço as tuas obras”, o texto utiliza a expressão “erga” (de “ergon”) para “obras”.
Poderia ter utilizado “energema” se desejasse enfatizar a vida pública, e não particular da Igreja. Ou ainda “euergeteo” se o objetivo fosse enfatizar a sua vida comunitária.
Entretanto “erga” se refere a atos puramentes pessoais, à vida particular. Não se trata de grandes realizações ou façanhas mas sim da rotina da vida diára.  Em outras palavras Ele estaria dizendo: conheço a sua vida, seus pensamentos e suas tendências. Conheço a sua rotina fora do templo. Conheço o seu caráter.

Como podemos avaliar o nosso esforço missionário ? A partir dos resultados na transmissão da Palavra  ou da fidelidade em vivê-la e transmiti-la ?

Creio que nós não fomos chamados simplesmente a converter as nações mas sim a viver a fé que pregamos. É o que mostra-nos 1 Coríntios 4:9 quando o texto afirma que os “apóstolos” (representando a Igreja que avançava) eram postos em “último lugar”, como se “condenados à morte”. E termina dizendo que “nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos quanto a homens”.

O termo para “espetáculo” neste verso é “theatron” de onde temos a palavra “teatro” em português. “Theatron” literalmente significava “estar em um palco sendo observado”. A idéia é de um grupo teatral se apresentando em um palco iluminado por tochas que eram postas ao seu redor. Cada palavra dita, gesto realizado, movimento ou intenções estavam sendo cuidadosamente observados pelo auditório.

A verdade simples e contundente que sai deste texto é que você e eu, a Igreja de Jesus Cristo, estamos sendo observados, e não apenas por homens mas também por anjos.  A ênfase desta afirmação portanto não é simplesmente kerigmática, defendendo uma Igreja que existe para apenas proclamar o evangelho de forma inteligível, mas sim martírica: uma comunidade de santos que, antes de mais nada, foi chamada para falar, viver, agir e reagir  de acordo com o caráter de Jesus.  O verso não fala a respeito de salvação mas sim de testemunho.

Tiago 4:8 também nos adverte para que não sejamos uma Igreja com “ânimo dobre” e para “dobre” usa a expressão grega “dipxoi” (di-dois; pxoi – almas) : duas almas. Fala portanto a respeito de alguém que possui um corpo mas duas almas. Uma alma quer Deus e a outra deseja o mundo. Uma grita “glória a Deus” durante o ardente momento de louvor e a outra caminha negociando a verdade e a justiça no dia a dia do seu trabalho. Uma fala de santidade, a outra de mundanismo.
Ele nos alerta assim exortando-nos a sermos um homem com apenas uma alma. Que deseja apenas a Deus, Sua verdade e justiça. A glória do Seu nome.

Missões portanto não é um empreendimento que pode ser medido pelos resultados alcançados mas deve ser definido pela fidelidade na comunicação do amor de Deus ao mundo, e portanto não é a competência mas sim a vida e caráter que definirão a obra a ser realizada.

O caráter precede a Missão. E se isto é verdade precisamos, em nossas igrejas locais e escolas se Missões fazer mais do que treinar missionários. Precisamos fazer discípulos.


2. No Reino de Deus a obediência determina o avanço

Logo após o Senhor Jesus afirmar que Laodicéia era uma Igreja disfuncional, Ele apresenta o motivo no verso 17:
“pois dizes: estou rico e abastado e não preciso de cousa alguma”.

O motivo da disfuncionalidade daquela Igreja na Ásia era o pecado, e neste caso a soberba.  O pecado possui a habilidade de nos incapacitar temporariamente, de inibir a nossa funcionalidade e de obscurer a nossa Missão.  O pecado produz uma Igreja estéril.

E perante isto percebemos que apenas a obediência ao Senhor construirá uma Igreja que irá até a última fronteira. Em toda a história da expansão da Igreja vemos que somente a obediência, e não a tecnologia ou recursos financeiros, determinou o seu avanço. Para avançar e transpor barreiras é necessário obedecer.

Vejamos quais barreiras temos perante nós ainda hoje.

Desafio Étnico.
Há no mundo atual 2227 grupos étnicos distintos sem qualquer presença missionária ou conhecimento do evangelho. Pressupondo que já entramos nas áreas mais abertas política, linguística, geográfica e culturalmente, podemos entender que estes 2.227 PNAs (Povos Não Alcançados) não são “mais” 2.000 grupos sem o evangelho mas sim justamente os mais resistentes em toda a história do Cristianismo. Portanto estamos lidando com o remanescente que apresentará maior resistência.

Desafio Linguístico.
Convivemos hoje com 6528 línguas vivas. 336 possuem a Bíblia completa, 928 o Novo Testamento completo e 918 grandes porções bíblicas, ou seja a Palavra está expressivamente presente em 2212 línguas. Deixa-nos com mais de 4.000 línguas, minoritárias e faladas por apenas 6% da população mundial, sem nada da Palavra de Deus. Entretanto tudo isto acontece em um mundo onde 1 bilhão e meio de pessoas, segundo a ONU, não sabe ler ou escrever. Não poderiam ler a Palavra mesmo se a tivessem em sua própria língua.

Desafio Missiológico.
Fomos bombadeardos positivamente desde a década de 80 por uma missiologia que priorizava alcançar os não alcançados. Neste afã começamos a concentrar-nos como Igreja e Agências Missionárias na lista dos PNAs. E hoje, desde que Ralph Winter primeiramente listou os 13.000 povos não alcançados nos anos 80, este número baixou para 2.227 e há quem pense que é ainda menor.  Entretanto, de acordo com os relatórios de crescimento da Igreja da World Mission International  podemos notar que o evangelho apenas arranhou a superfície social em pelo menos 4.000 destes povos.  Entre estes menos de 2% da população conhece a Jesus e não há registro de grandes avanços.
Corremos o risco, assim, de encerrar esta década sem nenhum povo não alcançado em nossa lista de PNAs mas com milhares de grupos onde mais de 90% da população desconhece Jesus. Esta também, ao meu ver, é uma realidade indígena brasileira. Precisamos enfatizar não apenas os PNAs em nosso país mas também os grupos onde a Igreja, presente, precisa de ajuda para fazer o evangelho chegar entre todo o seu povo.

Para ultrapassar tais barreiras é necessário obedecer. No dia 13 de agosto de 1727 houve um avivamento missionário entre um grupo de Checos refugiados na Saxônia (atual Alemanha) , chamados de Morávios. O líder daquele movimento era Nicolas Von Zinzendorf e esta pequena igreja enviou missinários para todos os continentes da terra e mudou o rumo da nossa história. Já ao fim deste movimento Zinzendorf desejou fortemente enviar um missionário para alcançar os esquimós no Ártico e decidiu desafiar o oleiro da aldeia. Um homem de meia idade, solteiro, que fazia vasos de barro para viver. Mas Zinzendorf não tinha mais dinheiro e nem uma equipe para enviar com ele como fizera no passado. Após orar ele o chamou em um fim de tarde e disse: “Creio que é vontade do Senhor que alcancemos os esquimós e quero lhe desafiar a ser este missionário. Não temos dinheiro para lhe dar portanto, se aceitar você irá como peregrino e com certeza, pela distância e dificuldade de chegar à região, não creio que jamais poderá regressar”.

Aquele oleiro pensou por um momento e disse: “Falar de Jesus ? Se você puder me dar um par de sapatos usados, amanhã cedo eu irei”. Imagino que aquele homem estivesse descalço e sua única exigência ao dar a sua vida à causa de Jesus foi um par de sapatos usados.  Hoje, mais de 50% dos esquimós são crentes no Senhor Jesus.

A obediência determina o avanço.



3. No Reino de Deus o sacrifício prepara a terra para o plantio.

O versículo 20 tem sido usado muitas vezes como ilustração evangelística:
“Eis que estou a porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo”.

Na verdade este é um convite à Igreja e não ao descrente. Um convite para a comunhão com Jesus. Entretanto comunhão com Jesus implica muitas vezes em sacrifício necessário pela simples necessidade de abstinência daquilo que não combina com o Mestre.

Para ultrapassarmos as barreiras que temos perante nós, sejam urbanas ou tribais, linguísticas ou culturais, de caráter ou de preparo, precisamos levar em consideração a possibilidade do sacrifício cristão.

Isto aconteceu em Atos no capítulo 8 quando a Igreja sofreu na primeira grande arrancada em direção à proclamação do evangelho além fronteiras.

No verso 1 Lucas diz que houve grande “perseguição” à igreja e usa para isto a palavra grega “Diogmos”, que está ligada ao sofrimento físico: causar dores, fazer sofrer. Expunha um ataque físico no qual os crentes eram açoitados e mortos.
No verso 2 ele diz que houve grande “pranto” a respeito de Estêvão e para “pranto” ele usa o termo “Kopeton” que significa literalmente “bater no peito” e indica um sofrimento Emocional. Era a Igreja angustiada e deprimida pela cruel  perseguição.
No verso 3 Lucas afirma que Saulo “assolava” a Igreja usando para isto um termo grego derivado de “Lumaino” que aponta para a destruição espiritual. É o mesmo termo usado em João 10:10 em que lemos que o diabo veio “roubar, matar e... destruir”. 

A Igreja sofria fisica, emocional e espiritualmente, mas crescia.  Com certeza ela nunca, conscientemente buscou o sacrifício, mas estava pronto para passar por ele quando o momento chegasse. Kermann afirma que “o sacrifício precede os grandes avanços” e em Atos 8, na dolorosa dispersão da Igreja, o evangelho avançou.

Os blocos de resistência que temos perante nós hoje,
a)      O Islamismo se enraizando cada vez mais sob uma cobertura política e sendo confundido com nacionalismo;
b)      O Budismo ganhando aura de religião de requinte a qual nunca recebeu tanto subsídio de marketing mundial como nos últimos 10 anos;
c)       O Animismo resistente e pronto a fomentar o sincretismo cristão onde quer que esteja;
d)      O secularismo pós-moderno varrendo a Europa e Norte da América.

O Cristianismo não ultrapassará estas barreiras sem sacrifício.

Estive recentemente visitando uma região próxima a Maraã no coração da Amazônia onde vivem os Kambeba, Kokama e Miranha. Eram tidos, até pouco tempo atrás, como grupos indígenas ainda não alcançados pelo evangelho. Tamanha foi minha surpresa ao chegar entre eles e ver ali a presença de uma forte igreja evangélica, que louva a Deus com fervor e amor. Procurando os autores daquele trabalho missionário nos apontaram alguns crentes ribeirinhos, especialmente o Sr. João, como é conhecido. Fui entrevistá-los. Pessoas simples, alguns ainda iletrados, mas com tremenda paixão pelo Senhor Jesus. Viviam em um “flutuante” formado por um cômodo apenas e, além das redes, possuiam somente uma cadeira e uma panela. Contaram-me então como, através do escambo e comércio com os indígenas, conseguiram lhes transmitir o evangelho e plantar ali uma forte igreja.
Perguntei-lhes: “Mas como vieram parar aqui, em região tão distante ?”
Responderam-me: “viemos ganhar a vida”.
“E como está a vida” – lhes perguntei.
“Vai muito bem. Já plantamos 6 igrejas”
Aqueles eram missionários sem sustento, aplausos ou reconhecimento. Eram servos de Jesus que confundiam o ganhar da vida com o ganhar de almas. Homens que passavam privações profundas para que o evangelho chegasse até ao final do rio Maraã. O sacrifício necessário rega a terra e abre as portas para o avanço.

Em 1876 Don Capricio, bispo católico romano, ministrava a palavra inicial na convenção regional hospedada em Taranto, sul da Itália, quando afirmou que ‘A Missio Dei, pela sua supremacia bíblica, dispensa a Missão da Igreja. Somos apenas contempladores das maravilhas do Deus que faz[ii]. Apesar da ênfase deísta gostaria de, após 125 anos, contestar esta proposta eclesio-missiológica que se apoderou etogenicamente da nossa consciência cristã pós-moderna.  A Igreja não é um membro contemplativo do Reino de Deus, excluída da Missio Dei e chamada a ser exangue, alienada, sem vida e sem paixão. Ela é  parte do Projeto de Redenção escrito pelo Senhor para a salvação de todo aquele que crê. 

Don Capricio, entretanto não se distancia muito da errática tendência cristã atual que tenta incluir-se nas bênçãos do evangelho e se auto-excluir de sua prática: a antibíblica vontade de ver a terra arada sem por as mãos no arado. De pregar o evangelho sem crer na possiblidade do sacrifício.

O sacrifício prepara a terra para o plantio.

Conclusão


Em 1784, após lerem a biografia do missionário David Brainard,  o estudante Wiliam Carey foi chamado por Deus para alcançar os Indianos. Saiu da Inglaterra, na viagem de navio sua esposa engravidou e deu a luz antes de chegar à India em uma viagem que durou mais de 12 meses em alto mar. Foi um dos maiores missionários que a História registra e traduziu porções do Novo Testamento para mais de 20 línguas.

Em 1852 Deus falou ao coração de um jovem franzino e não muito saudável para se dispor ao trabalho transcultural em um país idólatra e selvagem. Vários irmãos de sua igreja tentavam dissuadí-lo dizendo: “para que ir tão longe se aqui na América do Norte há tanto o que fazer ?” Ele preferiu ouvir a Deus e foi. Seu nome é Simonton que veio ao Brasil e fundou a Igreja Presbiteriana do Brasil tendo chegado aqui no dia 12 de agosto de 1859.

Em 1945 Deus levantou uma mulher também na América. Solteira, baixinha e inexperiente ela veio ao Brasil e embrenhou-se na floresta Amazônica onde desejava evangelizar um rio, chamado Içana. Seu nome é Sofia Muller, missionária da Novas Tribos do Brasil. E Deus deu-lhe forças. Percorreu aquele rio durante décadas, alcançou a tribo Baniwa, Kuripako  e traduziu o Novo Testamento para o Kuripako. Como usava todo o seu tempo em terra para o evangelismo ela o traduziu enquanto viajava de canoa de aldeia em aldeia durante mais de duas décadas. Hoje, uma vez por ano, todas as tribos convertidas se encontram para louvar a Deus por ter levantado Sofia Muller para lhes trazer o evangelho. A Funai afirmou recentemente que este é um dos pouquíssimos lugares na Amazônia onde os indígenas não enfrentam problemas com alcoolismo, conflitos e guerras.

Há duas coisas em comum entre Carey, Simonton e Sofia Muller. Todos registraram em seus diários e biografias um desejo apaixonante de fazer diferença na terra e compartilhavam a teologia da expansão do Reino até aos confins do mundo.

Não se contentavam apenas em susbsistir neste mundo vendo a vida passar. Criam que, em Deus, é possível mudar o óbvio, tranpor o impossível e fazer diferença em vida. Criam que fomos criados para levar o nome de Jesus até a última fronteira conhecida. Gostaria que também crêssemos assim. A Deus toda glória.




[i] T. Orgeon, Natural History IX – London 1893.

[ii] Christianity and Faith. R.W. Gordon, 1995.

EDIFICANDO UM POVO QUE MINISTRA

IMPLICAÇÕES DE IDENTIDADE:
EDIFICANDO UM POVO QUE MINISTRA

 

INTRODUÇÃO

Podemos dizer que um dos grandes desafios do ser humano é o de conhecer aquilo para o qual empreenderá sua vida ou parte de sua vida. Sem um momento de silêncio e reflexão para procurar conhecer aquilo para o qual vamos nos dar e dar de nós é correr riscos para futuras decepções e infortúnios pessoais. Em outras palavras, é colocar em risco nossa própria vida.
O mesmo princípio é válido para a identidade de uma igreja. Conhecer a igreja de Cristo a partir de uma perspectiva bíblica é indispensável para a caminhada rumo à consolidação e continuidade da implantação de uma igreja sadia. Isto é fundamental para uma convivência humana como experiência de alegria, de cooperação, de fraternidade, de serviço, de missão e de crescimento pessoal e comunitário em Deus. O desconhecimento pode nos conduzir à tentação de fazer da igreja uma espécie de imagem daquilo que eu sou e penso, distorcendo uma visão bíblica de certos pontos sobre a identidade da igreja e impedindo a agilidade da comunidade cristã na sua vida comunitária e missionária.
Gostaríamos de abordar alguns apontamentos necessários para fixar em nossa mente, de uma vez por todas, aquelas questões bíblicas acerca do ser da igreja que poderíamos dizer serem inegociáveis, ou seja, valores que não se alteram e que possibilitam ao povo de Deus, nas demais áreas da vida da igreja, a serem criativos e mais do que isso, contextualizados, atualizados, enfim CONTEMPORÂNEOS.
Creio que de início uma questão precisa ser levantada: - Quais seriam as áreas específicas que nos devem interessar na igreja local, pensando em aperfeiçoar o povo de Deus, tornando seus membros relevantes uns para os outros e a igreja para o mundo?

1.            A Igeja não é apenas um amontoado de pessoas, ela é povo de Deus.


A bíblia é clara neste ponto: nós não somos apenas uma soma de pessoas. Somos um povo, temos um nome e com isto uma meta, uma missão, um referencial existencial.

2.            A Igreja não existe só por causa do seu culto de domingo.

Sua missão é mais ampla do que apenas reunir-se para  o culto e quando nos limitamos a participar da igreja só em função do culto, estamos limitando o que Deus pode fazer através de nós individualmente e socialmente. Há pessoas que podem estar pensando, “Ah, eu vou ao culto todos os domingos e acho que isto basta para ajudar a minha igreja”.

3.            Deve-se ter uma visão dos propósitos que Deus procura realizar através do seu povo.


Martim afirma que  “os cristãos têm, com freqüência, uma visão severamente limitada dos propósitos que Deus busca realizar através da igreja”.  Devemos concordar com tal afirmação pois o que percebemos na maioria das igrejas estabelecidas, pensando a nível de Brasil, é todo um trabalho e agenda voltados para a manutenção da igreja, dos trabalhos já existentes e para a consolidação dos sistemas e estruturas internas, sejam relacionados ao governo, evangelismo, louvor, educação cristã ou outra área qualquer. É como se todo o propósito de Deus se resumisse nisso: atas, paletó, departamentos internos, recursos materiais, conferências, etc.
Tanto no AT quanto no NT podemos perceber que os interesses e propósitos de Deus estão muito além deste conjunto de valores criados pelos nossos vícios e concepções reducionistas de igreja. Para confirmar esta observação, particularmente, aprecio muito o texto de Efésios 1.22 e 23:
“E pôs todas as cousas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as cousas, o deu à igreja,
a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas”.
texto merece um estudo mais aprofundado, mas quero apenas que você observe as palavras grifadas (é o seu corpo), ou seja, a igreja é a expressão de Jesus Cristo. Quais foram os propósitos de Deus através de Jesus? A igreja só não salva, mas no que diz respeito à abrangência do ministério de Jesus, podemos afirmar ser de responsabilidade da igreja de Cristo.

4.            Deve-se ter uma visão do amor em que relacionamentos pessoais íntimos possam ser desenvolvidos.


“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.
Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amos uns aos outros”.
Francis Shaeffer diz que “esta passagem revela o sinal que Jesus dá para rotular um cristão não somente numa época ou numa localidade, mas em todos os tempos e em todos os lugares, até a sua volta”. Esta é uma ênfase em todo o NT e em I João 3.11, João afirma que o amor é a essência da mensagem ouvida desde o início: “Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta, que nos amemos uns aos outros”.
Estejamos no Brasil, ou nos EUA ou em qualquer outro lugar somos chamados a eleger o amor como sinal da comunidade cristã. Estamos implantando uma igreja e o amor deverá ser um dos pilares fundamentais deste projeto. Devemos começar já neste caminho de amor. Este é um sinal inadiável, que não se deixa para começar amanhã. Deus nos livre de sermos uma comunidade de relacionamentos superficiais, de amor só de boca, ou de alienação em relação aos problemas dos outros. Quem ama se compromete, se doa e, acima de tudo, faz a vontade do Senhor.
A comunidade cheia de amor é o contexto em que os dons espirituais são exercidos. O contexto relacional do ministério também nos leva a explorar a natureza não-institucional da capacitação. Os dons - no sentido mais limitado do dom do corpo e no sentido mais amplo da capacidade como concessão geral do Espírito - devem expressar-se no contexto dos relacionamentos pessoais íntimos.
Um dos desafios a serem enfrentados por uma igreja que deseje edificar um povo que ministra é desenvolver uma comunidade de amor, como o contexto para o exercício dos dons do corpo, e para construir relacionamentos significativos com a comunidade que a cerca, a fim de possibilitar a continuação  no mundo.

5.            Deve-se aprender a fazer discípulos e não apenas membros de igreja.


Este ponto merecerá em outra oportunidade uma atenção maior uma vez que o fazer discípulos é a meta final da evangelização e da implantação de igreja. Afinal, o que se pretende com a nova igreja é que seja ela uma comunidade de discípulos e não apenas de crentes evangélicos.
A ênfase sobre a encarnação, tanto na nova aliança como nos ensinamentos sobre o reino, ajuda-nos a compreender como é vital o crescimento à semelhança de Cristo para um povo ministrador. Para representar Jesus no mundo, é absolutamente essencial que cresçamos em direção à maturidade cristã e isto só se realizará via discipulado. O que pretendemos ser não é um grupo de  crentes, mas de discípulos do Senhor.

6.            Deve-se guiar o povo de Deus para que seus membros tornem-se servos uns dos outros e do mundo.


O cristão  é chamado para envolver-se com outros em suas necessidades e expressar interesse de maneiras significativas. Veja que esta idéia revela a necessidade de construir relacionamentos sólidos, profundos e significativos. Importante para isto é criar uma disposição pessoal de relevância para os outros e ver no próximo o seu valor como pessoa humana. O alvo na comunhão dos santos é de relacionar-se com a necessidade humana a fim de gerar compromissos responsáveis com o próximo e despertar nele e em mim a atenção para o chamado de Deus para uma convivência dinâmica, sempre em crescimento e coesa.

7.            Deve-se providenciar treinamento, no ministério, para que os membros do corpo possam servir a Deus com eficiência.


Este ponto é parte da nossa filosofia pessoal de ministério e creio que também deva ser da igreja. O discipulado permanente deve ter como foco a edificação permanente em direção à maturidade e compromisso pessoal com todo o conselho de Deus.
A medida que o Espírito chama os crentes aos vários ministérios, dando-lhes uma visão e moldando-a, é preciso que sejam também equipados para o ministério. Este é o papel da educação cristã na vida eclesial.
Do ponto de vista daqueles que possuem e desenvolvem ministérios dentro da igreja, é necessário um espírito ensinável, desejoso de aprimoramento com vistas à excelência daquilo para que foram chamados a realizar. Deve-se evitar descansar em modelos pré-estabelecidos, o uso permanente de estratégias e métodos que conhecemos somente porque nos acostumamos com eles ou porque são os únicos que conhecemos e ainda, evitar aquele espírito maligno que sei tudo o que preciso saber na minha área de trabalho. Caso isto não seja verificado, ocorrerá que todo potencial, talentos e criatividade, uma vez sufocados, perderão o seu sentido e significado e a comunidade se tornará irrelevante e ineficaz em seu ministério.

8.            Deve-se possuir uma melhor compreensão da liderança no corpo de Cristo.


Ao mesmo tempo que somos levados a acreditar numa liderança qualificada em todos os sentidos, espiritual, moral, de conhecimento da Palavra e na comunicação e ministério, que possui a responsabilidade de ser modelo e padrão do féis, devemos pensar e construir os meios de como os líderes podem funcionar em conjunto com outros membros que também participam inteiramente em Cristo da responsabilidade de ser um povo de ministradores.

9.            Deve-se construir um pensamento bíblico acerca da missão e espiritualidade integral da igreja.


Ora, com isto estamos afirmando que o nosso papel como igreja de Deus é amplo e dirige-se para todas as esferas da vida. A visão de papel e ação da igreja deve ser ampla, procurando agir e influenciar na cultura, nas estruturas da sociedade, na espiritualidade de um povo, etc.
No que diz respeito ao ser da igreja, somos chamados a desenvolver nossa vida devocional particular quanto comunitária, a adoração (louvor, orações, etc), a sociabilidade (pic-nics, passeios, esporte, etc), o profissionalismo, etc...

10.          Deve-se cultivar um espírito aberto para uma estrutura dinâmica.


Devemos a todo o custo evitar os ranços estruturais (formas), que são criados por um pensamento pobre e reducionista quanto maneira da igreja ser e funcionar. Precisamos entender que a mudança não é má quando procura reparar uma situação ou organismo ineficiente e que não comunidade da melhor forma o evangelho ou a vida cristã. Não podemos enriquecer o ser da igreja por causa de métodos e estratégias arcaicas e superadas por questão de atualidade.

11.          Deve-se cultivar no processo de crescimento a idéia e a atitude de não se criar aquele sentimento de posse ou “senhores” de determinados ministérios, áreas e projetos na igreja.


Isto azeda o crescimento. Todas as vezes que determinadas pessoas se sentirem insubstituíveis na sua função além de causar indisposição nos membros do grupo, estará matando as novas vocações dons. A igreja já não será mais do Senhor, mas de famílias ou indivíduos que tiverem mais concentração de funções, podendo determinar a vida da igreja.

12.          Deve-se entender que a IGREJA é uma referência para um projeto maior do que ela mesmo.


Ela está abaixo do Reino. Ela deverá, no entanto, ser uma plataforma ou uma referência de um ministério maior, mais amplo, que extrapole os limites das questões internas na igreja.
Um grande perigo no processo de crescimento de um grupo é aquele em que se perde a visão de fora em função das demandas internas. Quando isto acontece, a igreja para de crescer. Há que cuidar da sua vida interna, prestando atenção na necessidade de amadurecimento dos seus membros, de suas estruturas e formas, porém, sem jamais, perder de vista que o mundo é o palco maior e final de sua missão.

13.          Deve-se entender que a Igreja é a cara dos seus membros.

Responsabilidade, entusiasmo, alegria, dinâmica são palavras que caracterizam a vida de uma gireja. Contudo, lembre-se que quemproduz esta “cara da igreja”são as pessoas que estão arroladas na igreja. O produto final da igreja é a soma das personalidades que ela abriga.

14. Você deve entender que a igreja precisa de você.


Sim, você não pode ser um membro inativo, disfuncional e sem envolvimento e participação. O seu talento, seus dons espirituais, o seu tempo, o seu parecer, sua habilidade estão a serviço do Reino de Deus desde o dia em que você se converteu. 

sábado, 31 de março de 2012

Nos desígnios de Deus, a igreja existe para fazer missões no mundo. Deus em si mesmo tem caráter missionário. A Trindade é bem compreendida nas suas atividades de chamar e enviar. A Igreja entende seu propósito e caráter missionário quando observa e imita o amor de Deus pelo mundo.

Gosto da frase do teólogo Karl Barth: “Devemos ser uma igreja para o beneficio do mundo”. E a maneira que encontro para definir “uma igreja para o benefício do mundo”, estaria contida na frase “Comunidades de Deus com Caráter Missionário". Isto, de uma maneira geral, é para onde devemos caminhar.

O que quero dizer aqui, é que não somos apenas um “povo”. Somos um povo para o benefício do mundo. Adoro a frase que George Hunsberger e outros que a usam, que nós somos um povo enviado. Infelizmente, nós temos a tendência, como evangélicos, de compreender que somos “salvos de” e muito menos a compreensão do que somos “salvos para”.

Logo, a igreja que quero construir levaria muito a sério “equipar os santos” para o beneficio do mundo. É preciso ser um belo exemplo do que significa ser “pedras vivas” ( I Pe 1:4-5), como Pedro chama os cristãos.

Portanto, a igreja que quero construir, teria como alvo, ser uma comunidade “enviada”, um corpo de pessoas, enviados com uma missão. E isto significa que devemos ir bem fundo no mundo. Tragicamente, tenho descoberto que alguns de nossos líderes e membros presentes nas igrejas inverteram a ordem das coisas. Eles são do mundo, mas nunca estão no mundo. Precisamos ter a certeza de que não seremos intimidados pela marginalização e nem capturados pelas distrações que o mundo oferece.

Ao invés disso, Deus tem nos chamado para ser uma demonstração – um tira-gosto – do Reino de Deus, no meio do mundo real. Isto significa que temos, não somente, uma mensagem para anunciar, mas temos que incorporar esta mensagem na nossa vida diária. Por isso, não podemos conceber a nós mesmos como sendo uma igreja “com” um programa de missões; nós temos que nos ver e entender como sendo, de fato, uma congregação missionária. Emil Brunner disse que “Missão é para igreja o que o queimar é para o fogo”.

É tempo de aprendermos a ser missionários. Missão jamais pode ser apenas o que a igreja “faz”. Missões é o que somos. A comunidade de Deus é fundamentalmente um encontro missionário com cada cidade, setor, bairro e vilarejos, neste universo. 

domingo, 19 de junho de 2011

PASTORES, DIALOGEM COM AS MULHERES VOCACIONADAS AO MINISTÉRIO PASTORAL!

Uma reflexão sobre como pastores podem ser agentes de milagres na história da ordenação pastoral feminina dos batistas brasileiros.

“Ora, uma dentre as mulheres dos filhos dos profetas clamou a Eliseu, dizendo: Meu marido, teu servo, morreu; e tu sabes que o teu servo temia ao Senhor. Agora acaba de chegar o credor para levar-me os meus dois filhos para serem escravos.
Perguntou-lhe Eliseu: Que te hei de fazer? Dize-me o que tens em casa. E ela disse: Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite.
Disse-lhe ele: Vai, pede emprestadas vasilhas a todos os teus vizinhos, vasilhas vazias, não poucas.
Depois entra, e fecha a porta sobre ti e sobre teus filhos; deita azeite em todas essas vasilhas, e põe à parte a que estiver cheia.
Então ela se apartou dele. Depois, fechada a porta sobre si e sobre seus filhos, estes lhe chegavam as vasilhas, e ela as enchia.
Cheias que foram as vasilhas, disse a seu filho: Chega-me ainda uma vasilha. Mas ele respondeu: Não há mais vasilha nenhuma. Então o azeite parou.
Veio ela, pois, e o fez saber ao homem de Deus. Disse-lhe ele: Vai, vende o azeite, e paga a tua dívida; e tu e teus filhos vivei do resto.” (II Reis 4.1-7).

A história é simples. Dois filhos de uma viúva serão vendidos como escravos para pagar as dívidas dela. A mulher suplica que Eliseu a ajude. Ele a ouve e fala o que Deus deseja que ela faça. Ela ouve e faz o que o profeta diz. Deus a abençoa por confiar em Sua palavra e multiplica o azeite que ela tem. Ela vende o azeite, paga suas contas e seus filhos não são vendidos como escravos.

As lições são diversas.

Quero apenas refletir neste artigo a respeito do procedimento de Eliseu mediante a crise vivenciada por esta mulher e sua família, traçando uma ponte hermenêutica para a situação em que se encontram as pastoras não reconhecidas pela OPBB.

Ele começou um diálogo que geraria um milagre.

Eliseu nos mostra que diante de uma causa, de uma aflição, de uma situação limite o que se deve fazer é criar um espaço de diálogo expressado através de perguntas, no caso dele, “Que te hei de fazer?”

Tenho percebido nesta jornada da ordenação feminina batista brasileira que um grupo expressivo de pastores, alguns até bem intencionados, querem dar respostas às irmãs que desejam ser pastoras sem ouvi-las, sem conversarem, buscando elementos para subsidiarem soluções em suas causas. A própria instituição OPBB é hermeticamente fechada a qualquer tipo de diálogo. Este procedimento traz pelo menos dois grandes riscos.

O primeiro deles é os pastores acharem que possuem todas as respostas e que podem sozinhos resolver todas as questões; o segundo é as pastoras, não podendo dialogar dos pastores, caminharem sozinhas buscando outros opções que não sejam junto aos “homens de Deus”, o que seria uma perda irreparável.

Na verdade, o caminho sempre deve começar com o diálogo. Etimologicamente diálogo é a discussão ou troca de idéias, conceitos, opiniões objetivando a solução de problemas e a harmonia. Na prática, a importância do diálogo está no fato de estabelecer relacionamentos não hierárquicos, mas no mesmo nível de igualdade ainda que cada um tenha expressões singulares em suas ações ministeriais.

Elas precisam do diálogo com os pastores. Elas precisam falar não ao ar, mas com pessoas que possuem a mesma vocação, dores e alegria. Falar do que possuem, pouco ou nada, mas precisam verbalizar para que se sintam parte do processo e, ao mesmo tempo, precisam ser ouvidas pelos pastores que possuem maior experiência nos caminhos da ordenação sacerdotal, pastoral.

Voltando a história, o diálogo não foi estéril, mas gerou atitude da parte do profeta. Ele, percebendo toda a situação a partir da própria visão da mulher, vai agora apontar um caminho. Interessante que é um caminho solidário, comunitário e não de percurso solitário. Ela precisa ir a cada uma de suas vizinhas e contar com a ajuda delas.

A solução se dá novamente por diálogo, ajuda mútua e a comunidade. As vasilhas são doadas, o azeite é colocado, é vendido e o que estava em desordem entrou em ordem. O milagre aconteceu.

Quando há diálogo há a possibilidade do milagre.

Os pastores de hoje podem ser como um Eliseu nas vidas das pastoras. Pastores que acreditam na causa defendida por elas; pastores que facilitem o caminho de mulheres vocacionadas ao ministério pastoral e encaminhem a consagração delas; pastores que também contem com a ajuda de pastoras em seus ministérios; pastores que percebem filhas, parentes e mulheres vocacionadas em suas igrejas e as incentivem na formação e ministério; pastores mestres que, atuando em seminários e faculdades teológicas, detectam na vida de se suas alunas a expressão da vocação pastoral e as respeitem; pastores escritores e teólogos que exercem uma hermenêutica não fundamentalista, mas bíblica contemporânea e não tenham receio de se expor apoiando o ministério pastoral feminino; e, por que não dizer, a liderança da OPBB, já que a instituição tem pastoras em seus quadros, abrindo um caminho de diálogo com elas e não tratando-as com desprezo como tem acontecido na maioria das vezes até aqui.

Creio que se pastoras e pastores dialogarem em todos os níveis eclesiásticos novos rumos serão tomados e, com certeza, o final da história será melhor do que o início e a obra de Deus entre o seu povo será glorificada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“SAI DE TUA TERRA E VÁ PARA ATERRA QUE TE MOSTRAREI”

Texto Bíblico: Gênesis 12: 1
“ORA, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei”.
A ordem de Deus a Abrão foi clara: “Sai da tua terra e vá para outra terra que eu te mostrarei.”
É interessante que Deus convidou um homem essencialmente urbano para fazer a sua vontade quanto a formação do seu povo. Não sei se todos tem essa consciência.
Mas Abrão cresceu em UR dos Caldeus... provavelmente, de acordo com pesquisadores, ele deveria ter morado em uma das casas aristocráticas de dois andares. Devia ter passeado junto aos muros do grande templo e pelas ruas, e, levantando a vista, seu olhar devia ter encontrado a gigantesca torre escalonada com seus cubos pretos, vermelhos e azuis circundados de árvores. Ele foi cidadão de uma grande cidade e herdou a tradição de uma civilização antiga e altamente organizada. As próprias casas denunciavam conforto, até mesmo luxo. Encontramos cópias de hinos relativos aos cultos do templo e, juntamente com eles, tabelas matemáticas. Nessas tabelas havia, ao lado de simples problemas de adição, fórmulas para a extração das raízes quadrada e cúbica. Em outros textos, os escribas haviam copiado as inscrições dos edifícios da cidade e compilado até uma resumida história do templo.
Portanto, Abraão não era um simples nômade: era filho de uma metrópole do segundo milênio antes de Cristo.
Abrão vai para Canaã, a antiga denominação da região correspondente à área do atual Estado de Israel (inclusive as Colinas de Golã), da Faixa de Gaza, da Cisjordânia, de parte da Jordânia (uma faixa na margem oriental do Rio Jordão), do Líbano e de parte da Síria (uma faixa junto ao Mar Mediterrâneo, na parte sul do litoral da Síria) conf. (Números 34:1-15 e Deuteronômio 3:8).
Portanto, é mandado para uma região de várias cidade.
Tudo isto nos faz pensar que a cidade está no coração de Deus e por isso ele chama a sua igreja, para que uma vez tendo a “cultura urbana” possa transitar entre cidades levando o evangelho que transforma qualquer estrutura social porque transforma o indíviudo em sua essencia.
As Igrejas de nossas cidades precisam entender que são urbanas. Elas são os Abraãos contemporâneos. Isto significa dizer que elas precisam mover-se para as cidades.

A missão da igreja deve ser realizada nas cidades.
1 - As cidades são o lugar onde as Igrejas podem alcançar a próxima geração (jovens adultos querem viver na cidade);
2 – As cidades atingem mais pessoas inacessíveis (as pessoas são muito mais abertas ao Evangelho na cidade cosmopolita do que em sua cidade natal);
3 – As cidades alcançam as pessoas que têm um grande impacto no mundo (empresários, artistas, políticos);
4 – As cidades atingem os pobres (cerca de um terço dos moradores da cidade vivem em favelas).
5 - “Os seres humanos, de acordo com Gênesis 1, são feitos à imagem de Deus e refletem a glória de Deus mais do que qualquer outra coisa na criação,”
Nas cidades, temos mais imagem de Deus por centímetro quadrado do que em qualquer outro lugar do mundo.
As igrejas urbanas entendem que precisam amar o que Deus ama e por isso amam a cidade.
Temos que ver a cidade não apenas do ponto de vista sociológico, mas principalmente pelo ponto de vista teológico – Deus quer restaurar a sua cidade, tornando-a cidade fiel.
Quais os desafios de uma igreja urbana?
1 – Igrejas urbanas precisam ser contextualizadas, a fim de serem eficazes. Uma Igreja urbana é diferente de uma Igreja na zona rural. Ela deve insistir em sua contextualização.
Uma Igreja urbana, que tem pessoas de muitas culturas, subculturas, tribos deve ser extremamente paciente quanto às acusações de insensibilidade cultural e deve esperar ser acusada disso. Pastores de Igrejas urbanas devem aceitar que eles nunca poderão resolver queixas de insensibilidade cultural, mas que eles podem aprender com as críticas.
2 – Igrejas urbanas precisam mostrar às pessoas como sua fé se relaciona com seu trabalho porque os empregos são uma parte muito maior da vida de moradores urbanos.
Temos que ajudar as pessoas a aplicarem a sua fé no seu trabalho.

3 - Igrejas urbanas precisam esperar desorganização e mudanças; serem intensamente evangelísticas, mas ao mesmo tempo, famosas por sua preocupação com a justiça, serem comprometidas com as artes, e cooperarem com outras denominações e fé.
4 – Igrejas urbanas precisam agir com gestos e ações específicas -
a. Fome, a ausência de alimento suficiente, ou a falta de uma boa alimentação, ainda é uma realidade para a população urbana pobre. Mas o memorial do culto cristão é a ceia da comunhão: as pessoas se reúnem para ser alimentadas à mesa do Senhor. Os cristãos partem o pão e bebem o vinho juntos, simbolicamente proclamando que a igreja é uma comunidade onde os alimentos, celestiais e terrenos, estão disponíveis. Uma comunidade que chama seu Senhor, o pão da vida e cria uma refeição simbólica, a Ceia, que, naturalmente, transborda para outros ministérios de alimentação, tais como cozinhas e cantinas e doações de alimentos. Com e através da Ceia e o alimentar, a igreja urbana deve proclamar o evangelho que sacia os famintos que estão fora;

b. A cidade é caracterizada por más instalações educacionais. Um grande entrave para a reforma da base econômica da cidade é a falta de vontade de quem pode pagar para fazer o contrário de submeter seus filhos à insuficiência de escolas urbanas. Contudo, no meio da cidade está uma igreja que é o descendente da sinagoga judaica, que era principalmente um centro de ensino. A igreja capacita o seu povo e traz para a vida da tradição cristã, permitindo que o nosso património se tornar uma força no nosso presente. Aqui as questões morais da vida podem ser explorada. Na igreja dos valores étnicos dos diversos povos podem ser comemorados, suas línguas e culturas diferentes, enriquecendo o outro. É vital para a igreja urbana levar a sério sua função de ensino como uma comunidade cristã, consciente si mesmo. Aulas de Bíblia, sermões eficazes, grupos de estudo, conferências de fim de semana, mesmo retiros precisam ser uma parte da crescente consciência de Deus das congregações da cidade. O Deus que se opunham à guetização dos escravos israelitas do Egito é o mesmo Deus que é adorado nas igrejas da cidade. O Deus que falou através dos profetas para acabar com a opressão humana ainda é o Deus de toda a igreja. A história bíblica continua na vida existencial dos moradores da cidade;

c. A vida urbana não é bonita. A coleta de lixo é geralmente pobre. Lixo nas ruas. Muitas casas estão em más condições. Muitas pessoas da cidade são tão deprimidas que elas deliberadamente preenchem suas vidas com a feiura, como

um comentário inconsciente na forma como elas se sentem valorizadas por outros. Por isso, é especialmente importante que as igrejas da cidade sejam locais de beleza. Suas ordens de cultos, liturgias devem ser sensíveis e magníficas. O dinheiro gasto para embelezar os templos urbanos não deve ser considerado desperdiçado, porque a beleza é um dom que cobiçam os pobres. As igrejas precisam testemunhar o poder da beleza e do sentido de cuidar do ambiente de maneira limpa. Uma Igreja Urbana precisa brilhar como centros de beleza, como símbolos de esperança, como sinais do Reino. Eles precisam estar vivendo parábolas do cuidado de Deus;

d. A cidade tem cada vez mais se tornado um lugar de violência. Crimes contra pessoas e bens faz temer o morador da cidade. A vida se restringe quando as pessoas devem procurar a segurança acima de realização. Mas no meio da cidade está uma igreja - uma igreja que é, em si, às vezes vítima de violência e cuja principal símbolo é uma cruz. A história da cruz se desdobra, nela se encontra um amor divino que supera o ódio, e um Senhor vivo que transforma a morte. Somente na igreja que o morador da cidade ver o símbolo da violência redimida, o desespero da morte derrotada. Por todas estas razões, a presença simbólica da igreja da cidade é necessária à causa de Cristo - e, desde que necessário, merece o apoio e o investimento de, tempo e talento de todos os tesouros do povo de Deus;

e. Na cidade, onde encontrar moradia adequada e segura é uma preocupação constante, é como uma casa - uma casa de Deus - que a igreja realiza o seu testemunho. Ela precisa ser o que a moradia significa para as pessoas: um refúgio, um abrigo, uma arca para levar-nos através da tempestade. Embora a igreja não tenha nem o poder nem os recursos para resolver problemas de habitação urbana, pode ser uma casa acolhedora para os sem-teto, uma casa para aqueles que foram traumatizados, um refúgio para aqueles que estão perdidos. Pode ser a casa do último recurso, quando as estruturas habitacionais falharem, a casa de Deus para aqueles que procuram deve ser um lar abençoado;

Nós somos a igreja do Senhor encarnado que amou tanto o mundo que nasceu em nossa vida humana, sua presença virou um estábulo comum em um santuário de majestade. Sua vida transformou uma cruz de execução em um símbolo da ressurreição. Porque nós servimos a este Senhor, a igreja cristã é uma presença simbólica que pode transformar o desespero da cidade em esperança, a feiura da cidade, em beleza, o poder destrutivo da cidade, em redenção. Na igreja os sem-teto devem encontrar abrigo, aqueles de diversas origens, devem ser-lhes dados uma comunidade e os famintos podem se reunirem em torno do altar para serem alimentados com o pão e o vinho da Ceia do Senhor Jesus Cristo.

A igreja é uma presença, um posto avançado do Reino de Deus, uma luz na escuridão que as trevas jamais poderão extinguir ou subjugar. Nossa vocação é sermos nós mesmos. Algum dia mais cristãos dos subúrbios, das cidades reconhecerão que este testemunho é profundamente importante para eles. Então, talvez, toda a igreja irá colocar os seus recursos onde a necessidade está, não porque somos generosos, mas porque a nossa integridade como povo de Deus exige.

A igreja será verdadeiramente urbana.

sábado, 19 de junho de 2010

ONDE DEUS ESTÁ? A Situação de Nossas Instituições Batistas


“Onde Deus está?”, os repórteres perguntaram a Billy Graham por ocasião do atentado terrorista das torres gêmeas, EUA. O grande pregador respondeu mais ou menos assim: “Deus está nos bombeiros que estão trabalhando dia e noite para resgatarem os sobreviventes, nas centenas de pessoas solidárias que ajudam através do trabalho braçal e doações e dos paramédicos.”

Nestes dias tão complexos que estamos vivendo como denominação por causa da situação dos seminários teológicos, dos nossos centros educacionais e outras realidades que nos causam profunda tristeza de alma, precisamos de uma resposta para a pergunta: Onde Deus está trabalhando? Caso contrário, ficaremos perdidos e tudo o que fizermos sem sentido.

A resposta que vamos dar não é fácil. Trilha o caminho do diálogo e de uma profunda reflexão que deve ser feita com toda a humildade e por pessoas que realmente possuam o interesse de ver a obra do Senhor dignificada, apontando a todos respostas que os levem a crer na soberania de Deus, apesar da pecaminosidade e limitações humanas e não os deixem incrédulos da vida denominacional.

Onde Deus está?

Talvez na própria reflexão dos líderes que não possuem outra alternativa a não ser pensarem sobre o assunto, sobre os pecados e confissões que se fazem necessários nesta hora;
Na coragem que precisa ser empreendida para a tomada de decisões que rompam um ciclo viciado de cultura gerencial;
Numa politicagem que será desbaratada dando lugar a ações de justiça, amor e santidade;
Na solidariedade de líderes e igrejas que querem resolver os problemas sem jogarem tudo para o alto;
Nas estruturas que vão surgir para solucionar o caos e que servirão de atos preventivos para o futuro das diversas organizações de nossa denominação.
No surgimento de ‘profetas’ institucionais que declarem a vontade de Deus para a denominação e são acatados como instrumentos dele para a saúde de nossa organização batista.
No descobrimento de homens e mulheres de Deus capacitados para exercerem com eficácia e eficiência o serviço de Deus por terem sidos preparados por ele para esta hora.

Na busca de soluções é preciso não só reuniões sobre estratégias e prováveis soluções, mas respostas também. Não qualquer uma, mas a que nos dará condições para progredir.

Quando percebemos onde Deus está agindo nas perdas, descobrimos não somente ele, mas a tenacidade para continuarmos na jornada do dia a dia e a esperança para ir em frente, crendo que dias melhores virão. Sua soberania nos dá a absoluta certeza de que não estamos desamparados. Ele continua no alto e sublime trono.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A FILHA DE FARAÓ: QUEM SE IMPORTA?

Sobre mulheres ao pastorado batista

A causa não somente é nobre, mas é justa. Mulheres chamadas por Deus para exercerem o ministério pastoral precisam de espaço legitimado em nossa Convenção e na OPBB e enquanto isso não ocorrer como precisa acontecer, para usar a expressão preferida do nosso presidente Lula, a luta continua. Uma luta não com espadas, mas com o cajado. Uma luta que se trava não em um dia, como Davi e Sansão, mas no dia-a-dia como o próprio Davi e Saul, que desafia até a última hora a própria fé. Mas não podemos deixá-las lutar sozinhas, nós os pastores, isso é injusto. Afinal de contas é de se esperar que sejamos hábeis no cajado, não é verdade? Temos que ajudá-las neste santo ministério de exercerem seu dom em toda amplitude que se precisa ter. Creio no trabalho em parceria. Como se faz isso?

Nestes dias estava lendo a história de Moisés, a narração que se encontra em Gênesis 2:1-10 e me detive não nos hebreus, em Faraó, Joquebede ou Miriam, mas na filha do imperador. Sempre em minhas devocionais tenho me perguntado o que tenho a ver com o texto lido. Com os hebreus creio que somente a fé, pois não me encontro sobre a opressão de um ditador, de um poder déspota, em relação à situação financeira e de conforto estou mais para ser um Egípcio do que um hebreu; com Faraó muito menos. A dor da mãe e da irmã de Moisés também não é a minha. Então só me resta a filha de faraó. É possível aprender com alguém que não faz parte da aliança com Deus? Claro que sim. Quais as lições que esta mulher rica e poderosa pode ensinar àqueles que querem fazer a vontade de Deus cooperando com as pastoras em seus pleitos?

É preciso ver. Ela viu o bebê dentro de um berço de junco. Nem sempre é fácil ver, ainda mais quanto o objeto de nossa visão não faz parte do nosso mundo, das nossas preocupações, como no caso da princesa do Egito. Não sabemos o nome desta moça, nem o seu temperamento, o grau de sensibilidade que tinha diante do outro, o que nos facilitaria chegar à conclusão porque ela viu. O fato é que apesar de não a conhecermos ela parou o seu banho para ver. Tudo começa com a disposição que temos de ver o que está em nosso rio, onde nós confortavelmente estamos nos banhando. É incrível que mesmo diante de tantas pastoras no cenário batista, mais de cem, pastores do gênero masculino continuam querendo, propositalmente, ignorá-las como se elas não existissem. Ainda estão discutindo se é ou não é bíblico, questões sociológicas, econômicas e espirituais. É como que Moisés passando diante das vistas da princesa e ela não olhasse. Isso até poderia acontecer com ela, pois não era do povo de Deus, mas quando acontece com homens de Deus é lamentável. Nós pastores-homens deveríamos aprender a olhar com o nosso mestre Jesus. Seu olhar sempre foi atento para os marginalizados e para com aqueles que precisavam de ajuda, particularmente com mulheres. É preciso deixar o colírio de Deus dilatar nossos olhos para identificar nossos problemas de visão e nos receitar as lentes com graus corretos para que vejamos o que precisa ser visto.

É preciso querer abraçar. A filha de faraó não somente viu, mas resolver tomar o bebê em seus braços, criá-lo, providenciar tudo para o seu crescimento sadio. Como isso foi possível? Creio que um milagre aconteceu, pois o normal seria ignorar a criança ou no máximo providenciar uma pessoa para cuidar dela, de preferência que não tivesse nenhuma ligação com o reinado. Há muitos filhos no Egito! Ela assumiu a maternidade tendo um filho hebreu do coração. Trouxe um fruto da escravidão para dentro de seu mundo, de sua casa. Absolutamente incrível esta mulher. Outro dia soube de um pastor famoso em nossa denominação que disse o seguinte: `Não está em minha agenda o assunto das pastoras por isso não me pronuncio´. Outro ainda disse: ´Não sou vocacionado por Deus para abraçar esta causa, deixo para os que são´. Sinceridade à parte, o inferno está cheio de gente sincera, a questão presente é de luta por justiça e quem não é chamado para tal? E que agenda pessoal não cabe tal pauta? Sinceramente o que falta são pastores-homens que queiram abraçar a causa como a princesa assim procedeu com Moisés. Não é um abraço de guerrilha, como só nós homens sabemos dar, mas um abraço cheio de compaixão porque assim como aquela pequenina criança no rio, as pastoras precisam de ajuda eficaz para não serem devoradas pelo próprio rio. A advertência ao não abraço é a do próprio Deus: não nos deixará sem o julgamento necessário pelas obras que deveríamos fazer e não as fizemos.

É preciso entender os momentos. Era um pequeno momento de banho. Prazeroso com certeza. Nunca aquela moça poderia imaginar que sairia dali como mãe e entraria na história do povo de Deus, não é verdade? Tenho aprendido que os momentos que menos esperamos são os que acontecem coisas em nossas vidas que mudam a nossa história, são as ocasiões em que muitas vezes Deus age e precisamos estar atentos para isso com o prejuízo de perdermos o kairós de Deus em nossa própria história e na história de Deus no mundo. Sua atitude determinou muita coisa na vida de Moisés e do povo hebreu. Nós pastores-homens precisamos perceber estes momentos que Deus tem nos dado para refletirmos nas atitudes que devemos tomar para que as mulheres pastoras possam, como grupo escolhido por Deus, se desenvolver sadiamente. Talvez nesta caminhada tenhamos que assumir a ´paternidade´ que, apesar de serem mulheres, as trazemos para junto de nós porque entendemos que temos condições de dar um futuro melhor e mais do que isso, o essencial, compreendemos que Deus preparou esse momento em nossas vidas para salvarmos um ser que precisa de ajuda, pois está em uma situação injusta.Sempre me pergunto nesta hora o que Deus quer que eu faça de relevante no seu reino? Penso em grandes coisas. Mas tenho aprendido que são as pequenas que movem o mundo ao meu redor. Quem se importa? Como a princesa do Egito, hoje a OPBB possui todas as condições para ajudar nossas irmãs em sua trajetória de peregrinação e fé. Muitos de nós pastores-homens estão em lugares estratégicos no rio de nossa denominação, têm prestigio, inteligência, livre transito, relacionamentos que fazem diferença, possuem o dom do ensino e da prédica, são estudiosos e convincentes quanto a proferir a vontade de Deus de maneira contextualizada e bíblica. Resta saber se realmente estão dispostos a ver, a abraçar e a entender o que o Espírito de Deus está dizendo à igreja, como ele está se movendo nas águas do rio e em seus corações.

FILHAS ALTIVAS; PASTORAS QUE LUTAM

Gostaria que neste pequeno artigo ficasse registrada minha solidariedade e apreço pelas pastoras da CBB que lutam pela justiça, à propósito da participação delas em Cuiabá,em janeiro de 2010.

Mulheres não são iguais. Nem todas possuem as mesmas posturas. Há mulheres altivas e as lutadoras. As duas posturas são excludentes e inconfundíveis.

As filhas de Jerusalém
O texto de Is. 3.16-23, refere-se às mulheres de Jerusalém no 80 século AC, as filhas do povo de Deus. A síntese da constatação profética está na primeira frase: são altivas. Passeiam pelas ruas da cidade com uma postura de olhos, passos, sons, enfeites que ofendem a Deus. Digno de nota aqui é a ofensa a Deus, que o escritor faz questão de frisar e não aos homens ou as outras mulheres. E por que ofendem a Deus? Porque agem como se não houvesse uma causa a defender e razões para lutar. Estão tão confortáveis sobre suas próprias conquistas e riquezas que se esqueceram da injustiça feita com os órfãos e com mulheres como elas que ficaram viúvas e que sofrem, além da dor da solidão, as perdas econômicas e sociais. O julgamento do próprio Deus será cruel: a escravidão marcada na própria pele por sinal de desobediência à lei do Senhor. Todos veriam e saberiam o resultado de não ser justo e sim ímpio no sentido mais exato dos termos.

As Pastoras
Que diferença das mulheres pastoras que passeavam nos corredores da CBB em Cuiabá, MT, no mês de janeiro de 2010! Ao contrário das de Jerusalém, embora andassem como elas, entre o povo, movimentavam-se numa postura de justiça e retidão. Poderia afirmar por testemunho próprio, corriam. Femininas sim, encantadoras, por que não? Com todos os seus atavios digno de nota, mas com algo muito além do que se podia ver: sentimento de luta por uma causa que ultrapassa as suas próprias vidas e objetivos. Uma batalha por dois valores de suma importância no reino de Deus: justiça, michpat, traduzido por direito, por busca do prevalecimento do que é absolutamente certo diante de Deus e de todos; retidão, tsédeq, como aspecto pessoal do cumprimento do direito.
Na hora da votação por direitos igualitários na OPBB, pararam de andar e sentaram porque tudo o que se poderia fazer, fizeram. Agora somente restava oração, fé, lágrimas e a certeza de tarefa de casa bem cumprida. Puderam sentar-se porque tiveram uma postura ativa, eficiente e eficaz antes da hora da decisão.
Deus ficou alegre. Com certeza seu julgamento a elas não foi de destruição, mas de vitória. Ele veio com seu poder e glória, de maneira tão surpreendente fazendo justiça com a causa que elas defendiam, porque ele não deixa jamais sozinho aquele que o busca e faz a sua vontade.
Porque há mulheres que insistem em ter outra postura que não a altivez ainda há esperança para Israel.
Filhas – pastoras de Israel - não desistam! Deus prevalecerá e tudo o que não está completamente aplainado, o será.

POR UMA CARTOGRAFIA DO ESPAÇO CULTURAL FEMININO

Mapa é uma representação do espaço

Tenho acompanhado toda a discussão sobre o pastorado feminino e o que percebo, na maioria das vezes, é a falta de dados precisos sobre o mesmo, principalmente por parte de líderanças denominacionais que influenciam em decisões importantes quanto ao futuro de nossa denominação como a própria OPBB que deveria ser a primeira a ter computado informações claras nesta área. Até onde tenho conhecimento, a primeira fonte precisa de informações quanto a esse assunto veio de uma pastora que modestamente começou a criar um banco de dados para saber os nomes, os lugares e o tempo de função pastoral feminino em todo o Brasil, a Pra. Zenilda Reggiani Cintra.

O interessante é que as decisões até então tomadas que atingiram nossas pastoras e o quadro pastoral da CBB foram tomadas no escuro, pois sem dados precisos não há luz necessária para se ver por todos os ângulo do assunto em pauta, o que foi e é uma lástima.

Defendo veementemente um mapeamento do espaço pastoral feminino na CBB. Uma cartografia. Só então poderemos trabalhar de maneira objetiva e concreta com o novo em nosso meio.

Cartografia (do grego chartis = mapa e graphein = escrita) é a ciência que trata da concepção, produção, difusão, utilização e estudo dos mapas. Aqui uso o termo no sentido lato para expressar o desejo de se ter um mapeamento sobre a pastoral feminina desde o seu surgimento nas igrejas batistas da CBB.

É claro que não estou pensando apenas no desenho escrito do número das pastoras já existentes, que já é algo por si só expressivo, mas na análise da história da participação dessas mulheres que tiveram que lutar uma batalha praticamente sozinhas para chegarem a ser participantes do ministério pastoral. Um mapeamento que leve em conta o porquê da fala ou do calar-se, as memórias positivas ou negativas que guardam em toda a jornada de fé e as consequencias em suas histórias pessoais e ministeriais. Um mapeamento que se torna em si mesmo um apelo para escrever uma história das mulheres e para circular seus problemas àqueles de outras histórias como em nosso caso pastores do gênero masculino. Essa atitude poderá modificar o quadro geral da história destas que simplesmente querem ter o direito de exercerem com legitimidade seu dom, no caso pastoral no conjunto da história de nossa denominação. Uma cartografia empreendida que acompanhe os contornos, as mudanças e as rupturas, bem como as multiplicidades que envolvem os comportamentos, os sentimentos e a sensibilidade de cada pastora envolvida na prática pastoral denominacional.

Para que isso se torne realidade é preciso ouvi-las e para isso não se precisa fazer uma tese de mestrado e doutorado. Nem estou pensando em um GT que vai trabalhar o assunto pastoras (como já houve no passado), isso é algo puramente sistêmico e administrativo. Estou pensando em algo mais simples, no entanto mais profundo: sentar-se com elas e no mesmo nível de autoridade – homem e mulher – conversarem refletindo sobre suas vivências.

Deveriamos ser muito bons nisto uma vez que nosso sistema de governo eclesiástico está baseado na democracia, no sistema congregacional onde, por premissa, o falar e o ouvir fazem parte intrínseca do processo, mas não o somos, na prática, quando “o poder” se impõe contra a parte fragilizada, a mulher, pela opressão e a não legitimidade no sistema

Fica aqui o apelo: vamos lutar para um mapeamento. Lutar por conversas criativas, com palavras saudáveis que resultem em resenhas que traduzem nossa visão sobre o assunto pela ótica correta e balizada. E quem sabe depois de ouvir suas histórias de vida e de luta possamos ir à luta como Baraque e ganharmos a batalha.